Resenha: A corte encantadora (Mei Gongqing), por Lin Jiacheng

A encantadora cortesã

Título: A corte encantadora (The Bewitching Courtier em inglês), (Mei Gongqing, 媚公卿 em mandarim)

Autor: Lin Jiacheng

Língua em que li: Inglês, pelo hamster428

Tem em português: no presente momento em que publico essa resenha não há tradução, mas…

Sinopse traduzida por mim:

Essa é uma história de “renascimento”, na qual Chen Rong, a heroína, encontra uma segunda chance para viver após ter incendiado a si mesma até a morte. Passada na era de Jin Oriental, quando os burocratas e suas idéias brilhantes, porém igualmente hipócritas e opressivas governavam o império, Chen Ronge faz uso da sua experiência de vida parrada para sobreviver e ter a esperança de que dessa vez encontre a felicidade.

Esse é um livro com uma prosa linda do estilo encontrado em Os oito tesouros do enxoval e em Para ser uma esposa virtuosa, o que já é o suficiente para que começa a ser classificado como uma boa leitura. Só que tenho uma regra: uma história legal com um péssimo escritor dá para aguentar, só que uma ideia ruim com um escritor brilhante não desce. E o motivo disso é porque você sabe que está lendo algo de boa qualidade, mas a sua falta de empolgação é tanta que te dá desânimo em continuar a ler, e pena de parar de ler.

Por que estou falando isso? Só para compartilhar dessa ideia, não tem nada haver com A corte enfeitiçante. A história é boa. Só que ao contrário das duas obras citadas, o cenário é feio.

Vamos ao momento histórico na qual se passa o livro, em Jin Ocidental. Olha só o que a Wikipédia diz sobre o período:

Existiram neste período, duas dinastias Jin, a Dinastia Jìn Ocidental(西晉, 265-316), que foi fundada pelo Imperador Wu de Jin, mais conhecido como Sima Yan. Embora tenha fornecido um breve período de unidade após ter conquistado o estado de Wu oriental em 280, Jìn não podia conter a invasão e a insurreição de povos nómades após a guerra devastadora dos oito príncipes. A capital da dinastia Jin Ocidental era Luoyang até 311, quando o imperador Huai foi capturado pelas forças de Han Zhao. A capital foi transferida para Chang’an, por quatro anos até sua conquista por Han Zhao em 316.

Então a corte de Jìn fugiu para o norte e o sul e restabeleceram a corte de Jìn em Jiankang, a sudeste de Luoyang e de Chang’an e a Nanjing, sob o príncipe de Longya.

E em qual período você acha que esse livro se passa? No “breve período de unidade após ter conquistado o estado de Wu oriental em 280”? É claro que foi depois, e lemos de camarote sobre todos esses eventos históricos. Em suma: essa era não era brincadeira. Era guerra. Esse é um livro de guerra que quase nunca foca nesse tema, já que a protagonista não é nenhuma guerreira, e sim uma mulher da corte.

Chen Rong é sim uma mulher bem nascida, mas na nobreza existem rankings. Tem o mais nobre e o menos nobre, a melhor família e a família piorzinha. Seu pai é um filho shu (de uma concubina, que é inferior na hierarquia de um filho di, que é aquele gerado pela esposa oficial) de um ramo cadente da família Chen, uma família com diversas honras. Ramo cadente significa que ele é sim da família Chen, mas é o parente do parente do parente, ele em questão de parentesco está longe da família principal, a com poder. Isso significa que o status de seu pai não é lá aquelas coisas. Para piorar, ele tem uma concubina, e uma filha com ela. Essa é a protagonista, a filha shu de um homem shu do ramo cadente da família Chen. Ela é quase um pouco melhor do que uma serva em questão de lugar na sociedade, vamos dizer assim.

E essa Chen Rong não é o que se espera de uma mulher bem nascida na época. Não é calma, plácida, não finge ser uma estátua obediente. É uma mulher apaixonada, uma mulher que age, que faz de tudo para conseguir o que quer. E pelo primeiro capítulo, dá para ver que ela conseguiu o que queria, ou ao menos se casou com o homem o qual ela amava loucamente. Só que isso não terminou bem, não terminou nada bem. Terminou com ele nunca nem tocando nela, dormindo com outra e com Chen Rong aceitando a sugestão de uma “amiga”, a de tacar fogo em si mesma. Sim, Chen Rong se suicida, e de uma das piores maneiras possíveis (não que eu vá querer que você se mate, eu não sugiro ninguém a fazer isso, mas se incendiar? Isso é muito… nem sei dizer). E pela narrativa, você sente a dor desse “amiga”, sente a dor de Chen Rong… Hardcore.

Porém só em histórias, segundas chances acontecem. Só para deixar claro, isso não acontece na vida real, e explico o porque de estar avisando isso na minha resenha de A princesa Wei Yang, por Qin Jian, e assim aproveito para fazer propaganda de outra resenha. Mas quem gostar de A corte enfeitiçante também vai gostar de A princesa Wei Yang. Voltando aos milagres, depois de sua morte, Chen Rong acorda quando era jovem e antes do primeiro desastre de sua vida acontecer. Com os conhecimentos prévios de sua vida, que manchará ainda mais a sua reputação no futuro, e ela impede que ele aconteça e ainda começa a se preparar para os problemas que virão.

Só que essa não é uma história convencional de reincarnação. Em geral, o mundo está pacífico em uma história desse gênero, e se tiver algum grande acontecimento, será só depois de muita história. Não. Essa é uma história de guerra. Ela acorda dias antes de fugir da sua cidade natal em uma caravana com outra família nobre, já que era a única da família Chen que estava por lá. Ela fez isso porque todos sabiam que logo a cidade seria tomada e aqueles que ficarem seriam assassinados, e essa era a melhor coisa que poderia acontecer.

A família Wang, aquela que lidera a caravana de fuga, aceita a inclusão de Chen Rong, e ela logo no primeiro dia tenta dar um conselho para eles durante a refeição que compartilhavam. Uma mulher aconselhando os homens de uma outra família já não era algo bem visto, ainda mais uma que tinha o status dela, então assim começou também aquilo que ela buscava evitar: ter uma má fama. Só que ela estava certa nesse conselho, e os Wang perderam muito por não ouvir, e depois disso, conquistou a admiração dos homens da família.

Eu disse os homens da família. As mulheres não estão inclusas nisso, na realidade acharam e continuavam achando que ela era uma abusada. O problema disso estava nela mesma.

Há um ditado na China Antiga que seria mais ou menos assim: Uma mulher bonita terá um destino trágico. E Chen Rong é muito, muito, muito bonita mesmo. E não tinha uma beleza delicada, ela era sexy. Uma gostosona. E como já não teve mais os sofrimentos do passado, sua beleza só aumentou, o que era o seu grande problema.

Agora outro ditado: escolha sua esposa pelas suas virtudes, e escolha suas concubinas pela sua beleza. Está aí a raiz da infelicidade de uma mulher bonita, ainda mais uma não bem nascida como a protagonista. Os homens desejam ter uma mulher bonita como concubina, as esposas já não desejam que os maridos tenham concubinas, ainda mais uma bonita que vá roubar toda a atenção do seu marido, mas tem de aturar já que se reclamar, perderá a fama de virtuosa. Dar uma filha como concubina para uma família de status mais alto que a dela era considerado um bom negócio, e ninguém pensava na felicidade da noiva. Uma concubina está completamente submetida à esposa da casa, não tendo nenhuma liberdade, e uma concubina favorecida é invejada por todas as outras esposas. Um filho shu é inferior a um filho di, mas o pai pode gostar mais do shu por amar sua concubina, o que coloca o lugar do filho di em risco, por isso a esposa pode até armar para que a criança seja abortada, ou ainda fazer a vida dela um inferno. E então um dia a concubina envelhece, o marido perde interesse por ela, arranja uma concubina jovem e bonita, e tudo o que resta para essa antiga beldade é o abandono e o rancor de todos, ficando sempre com a fama de má.

E todos achavam que Chen Rong só era boa o suficiente para ser a concubina de alguém. Apesar de toda a ajuda que ela prestou a família Wang e da gratidão que eles tem por ela, eles não acham que é adequado que ela se case com um dos homens da família, e sim que se torne concubina de um deles. Em um momento da história, acho que foi a prima dela quem disse que Chen Rong não estava destinada a lidar bem com as mulheres, e sim com os homens. Mas ela estava disposta nessa vida a ser feliz, e não queria ser concubina de ninguém. Mas era uma época de guerra de decadência moral, e Chen Rong era desejada por muitos. E também desvincular do passado era difícil, ainda mais para alguém que foi apaixonada de forma tão doentia quanto ela.

O que eu diria que mais difere A corte enfeitiçante dos outros livros de reincarnação com personagens femininos como protagonista é o objetivo. Normalmente a protagonista tem sim um passado tão trágico quanto o de Chen Rong quando voltam ao passado, estão dispostos a fazer a vida de todos que a humilharam um inferno, mas não era o caso dela. A garota assumia a culpa de tudo o que aconteceu como dela, que ela não devia ter feito isso e nem aquilo. E ainda achava que muitos foram vitimas suas. Ela sabe que o que aconteceu com ela era um milagre que talvez alguém como ela nem merecesse, ou então que seu sofrimento foi tanto que merecia uma segunda chance. O que Chen Rong quer não é vingança, mas sim uma vida pacífica.

O que se tornava cada vez mais difícil de conseguir.

É uma obra na qual você torce muito. O que será que ela vai fazer? Será que Cheng Rong vai sair dessa? Não acredito que ela fez isso! E em alguns momentos, o livro choca, de verdade. Acreditem em mim. Mas o ritmo é lento, permitindo o leitor a saborear cada detalhe da trama sem sentir que perdeu algum detalhe.

Eu gosto da Chen Rong como protagonista, mas não gostaria dela como uma pessoa. Não seriamos amigas. Ela é uma mulher que foi muito, mas muito machucada em sua vida anterior, ao ponto de que quando alguém sugerisse que se matasse, ela fosse lá e fizesse. Ela é alguém que está desesperada para se proteger e para se preservar, alguém que leva a sério o ditado “os fins justificam os meios”. Ela vai sim usar pessoas, tirar proveito da situação quando conseguir e brincar com o sentimento alheio, mas sempre, por conhecermos a história dela, vai ter uma justificativa. Ela sabe como terminará dependendo do que acontecer. Ela sabe que é uma mulher desprotegida, que está sem seu pai e irmão, e que tem de se virar de alguma maneira para que não acabe sendo usada por outras pessoas que a consideram apenas como uma beldade da qual podem tirar proveito.

E também são raros os momentos no qual temos acesso ao seu pensamento, ao menos acesso aos planos que está bolando. E isso somado com toda a cortesia da época, na qual se diz algo, mas na verdade está falando o contrário, faz com que as atitudes dela nunca sejam claras, o que a torna uma mistério, mesmo que a história tenha ela como protagonista. Isso é um problema para aqueles que gostam de torcer para pares românticos, já que você não sabe aquilo que rela realmente sente, só que algumas vezes seu coração começa a bater mais forte e que em algumas situações não consegue deixar de chorar.

Minha impressão, a princípio é a de que:

  1. não importa quem, ela não quer se tornar uma concubina, e nem ter um casamento com alguém que ela tenha certeza que vai fazer com que sofra.
  2. tem um homem com boa fama que para alguém como ela, é um bom partido e tem que com alguma sorte, ela vai conseguir se casar com ela.
  3. tem um outro rapaz que vem de uma família influente, mas que ela trata como o “se nada der certo…”
  4. ela sabe que sofreu pra caramba no seu antigo casamento, mas ela amou muito o seu marido, e não sabe o que fazer com ele

E como de tradição, os personagens injustiçados dessa história. Eu diria que quase a metade (aqueles que não estão em uma situação de poder e são corruptos) são injustiçados durante o enredo. Se fazem alguma coisa ruim, se tentam tirar vantagem, se vão prejudicar propositalmente alguém, no fundo é uma maneira de se defender. Por isso eu nem tenho tanta raiva da prima de Chen Rong, que aparece como vilã logo no primeiro capítulo. Tendo uma prima tão linda como ela, e em uma sociedade na qual uma mulher não valia nada e sua vida dependia do seu casamento, agir da maneira como ela faz é mais do que o esperado.

E para aqueles que sabem inglês, devem estar com raiva de mim e questionando a minha habilidade. The Bewitching Courtier não é traduzido como A corte encantadora. Courtier significa cortesão, e eu acho que seria aplicado para a protagonista, então cortesã. Mas como eu agora tenho certas liberdades, decidi que esse seria o título que mais se adapta para o português.

E porquê eu me preocupei com isso?

EU RECEBI A AUTORIZAÇÃO DO TRADUTOR EM INGLÊS PARA TRADUZIR O LIVRO EM PORTUGUÊS!

Novidades sobre isso em breve!

Cá está a tradução, em andamento:

A encantadora cortesã: Mei Gongqing

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