Resenha: Perdida, por Carina Rissi

Título: Perdida

Autor: Carina Rissi

Língua lida: português

Essa é uma resenha que faz mais de um ano que se encontra em um joguinho mental destro de mim. Faço ou não faço? Faço ou não faço? Faço ou não faço?

Disso dá para deduzir quem boa coisa eu não achei desse livro. Só que com a pouca quantidade de autores nacionais que conseguem chegar onde Carina Rissi chegou, e não acho interessante falar algo contra alguém desse calibre. E talvez tenha alguma coisa de recalque na minha opinião (essa palavra usado no sentido popular), por ser uma escritora amadora. E sendo sincera, vou fazer a resenha com as impressões que tive com a leitura que fiz há algum tempo. Não reli.

Vamos começar pelos poucos elogios que posso fazer.

Não me interessei em ler muitas obras da autora pela sinopse, por isso esse é um dos únicos livros que eu li dela. Também comecei a ler No mundo da Luna, mas como não era do tipo de história que eu gosto, larguei no meio do caminho. Não falei que era ruim, mas não era algo que eu gosto de ler, uma questão de preferência pessoal.

Carina Rissi tem um estilo de escrita que eu gosto. Não é lírico, rebuscado, que possa ser chamado de bonito nada disso. Também não tem aquele ar de fanfic malfeita que se encontra por aí, mal escrito e sem graça. É pessoal, gostoso de ler, que te cativa e faz você ficar imerso no que conta. Ela tem uma pegada cômica, que por mais que eu acho que nunca chegue a fazer gargalhar de verdade enquanto lê, faz você estar sempre com um sorrisinho durante a leitura. Acho que isso é algo de suma importância para um autor, conseguir despertar a vontade de seu leitor continuar a ler.

Também não tenho nada a reclamar em questão de ritmo. Apesar de que eu goste mais de histórias que passem devagar, Perdida não é uma história que é apressada. A autora tinha uma história para passar e conseguiu dar sua mensagem sem enrolar ou espremer em nenhum momento.

Agora ninguém pode falar que eu não falarei nada de bom sobre a obra.

Vamos falar mau!

Vou explicar o motivo pelo qual falei que eu poderia ser uma recalcada: Carina Rissi escreveu um livro de viagem ao tempo, do presente para o passado. Meu gênero favorito de longe é viagem ao tempo, e acredito que é um dos gêneros mais difíceis de se escrever. Sim, meu sonho é escrever um livro de viagem do tempo, tenho mais de cinco enredos diferentes na minha cabeça, só que eu não me sinto preparada para escrever um. E a autora também não estava preparada, mas fez isso mesmo assim…

Para conseguir fazer isso, tem de ter um domínio do que é o presente e o que é o passado, suas diferenças e as suas igualdades. Se tratando de uma protagonista feminina, deve se fazer algumas perguntas. Quem e como é uma mulher moderna? O que ela pensa, o que ela almeja, quais são seus valores, quais são seus limites? O que ela suporta e o que ela aguentaria? O que a faria desabar? Quais são os seus conhecimentos de mundo? Agora sobre o passado, deve saber a mesma coisa para os personagens, e ainda dar uma boa estudada sobre como era a sociedade da época em que se viaja.

E isso foi feito muito mal nessa história. Comecemos com a caraterização da época. Esse livro sofre de uma “inglezação” que está em voga para muitos autores brasileiros. É o nome que eu dou para fazer com que o livro se pareça com um livro escrito por um autor da língua inglesa, que é atualmente o que mais se consome no mercado brasileiro. Só que como não é a nossa cultura do dia-a-dia, e também quem escreve não tem conhecimentos sobre como é o estrangeiro, acaba virando uma coisa estranha, um mundo que não é nem o brasileiro, nem o de um país estrangeiro, e sim algo que o autor criou na própria cabeça. Não falo só de ambientação, mas também de personagens e ideologia. O próprio par romântico é um inglês.

Supostamente a história se passa em São Paulo na metade do século XIX. De maneira alguma a época na qual a protagonista foi enviada era a cidade de São na metade do século XIX, qualquer um com conhecimentos básicos de história sabe disso. O clima, os acontecimentos, nada disso bate com o tempo histórico. E não me venha com a desculpa de que “escravidão é algo feio demais e iria estragar o tom do livro” quando se tem um movimento abolicionista acontecendo naquele exato momento. Se você vai  falar de Brasil no século XIX, XVIII, XVII, você vai ser obrigado a falar sobre escravidão, a ter personagens negros como servos, a ser chamada de “sinhá”, “sinhô”. E o que o leitor quer ver uma mulher moderna fazendo nessa época, além de escandalizar todos com sua minissaia? Defendendo a ideia de que todos somos iguais e ao menos tratar em algum momento um negro como ser humano, ser contra casamentos arranjados, essas coisas.

O que se colocaria em São Paulo nessa época? Para começar estudantes universitários de direito, casarões dos barões do café, café e mais café, notícias sobre a corte no Rio de Janeiro, escravos, o começo das discussões sobre a libertação dos escravos. E a porra da corte que às vezes conseguia ser mais conservadora do que as europeias (sim, o Brasil sempre foi um país de contrastes.). Poderia ao menos mencionar uma ou outra figura histórica. Um dos protagonistas é inglês, por que não adiantar alguns anos e mencionar o projeto ferroviário do Barão de Mauá ou a Questão Christie? Está óbvio que a autora não se preparou para escrever sobre essa época.

Mas sabemos no fundo o motivo para isso. A história se passa em São Paulo, mas na verdade se passa em uma fictícia cidade do interior da Inglaterra.

E agora vamos falar sobre a inconstância da protagonista. Ela é o “é, mas não é”. Foi apresentada como uma mulher moderna amante das obras de Jane Austen, e esse é o motivo pelo qual eu fiz o julgamento de que na verdade a história se passa numa Inglaterra fictícia (teria feito melhor proveito se lesse José de Alencar. Não Iracema, que é complicado demais e nem é nessa época, mas Senhora é um bom livro!). Ela é viciada, do tipo que sabe todas as linhas, e supostamente alguém que se daria bem se fosse viajar no tempo. Mas não. A protagonista não só não age como uma mulher moderna, como também não age como alguém que lê obras de época, sendo várias vezes infantil. Simplesmente infantil, a criança que dá birra.

Se quisesse colocar a protagonista da maneira que ela é e sem ter essa inconstância, bastava não mencionar que ela gostava de Jane Austen. Carina Rissi gosta de Jane Austen, a personagem que criou não precisa gostar de Jane Austen! Ela não demonstra isso em momento algum!

Não tenho nada a falar sobre o par romântico. Idealizado e genérico, impossível de não gostar. É o cara dos sonhos de qualquer mulher.

As situações são sim cômicas, interessantes, o enredo é fluído. O problema dessa história é que se você parar para pensar em qualquer coisa, toda a magia da obra desaparece.

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